O Livro de A.E.O.N de Andrea Ella Okeanos Nihil
Título O Livro de A.E.O.N.
Autor Andrea Ella Okenaos Nihil
Colecção Cthulhu
Formato 14 x 21 cm
Nº páginas 144
Fotos capa/contracapa Ana Alves
Acabamento Capa mole
ISBN 978-989-53854-5-4
Ano 2025
Sobre o livro:
E se a literatura pudesse ainda ser nova?
Um não-autor compôs um anti-sujeito literário e verteu-o em contra-literatura. Políptico onírico-metafísico em que o não-humano documenta a humanidade como jamais feito, pesadelo literário que exige o despertar da vida sonhada, este é o livro português menos português de sempre, meta-literatura poética que opera a destruição da própria literatura. A questão premente sobre este livro não é quem possa ser o autor ou o sujeito do livro, mas o que seja, de facto, o próprio livro, livro que lê o leitor antes de ser lido, anti-livro, escrito por ninguém. Arda tudo!!!…
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Excerto do livro:
Contra os céus enodoados de sombra, o mocho que piava no longe veio pousar na lividez marmórea de uma laje tumular mais recente. Escutavam-se coros de murmúrios que assistiam a sensibilidade do poeta. No centro da necrópole, pensei então em como é solitário ser-se deus… e, mais para que assim firmassem uma escritura do que para qualquer outro efeito, decidi-me a falar. Porque quando um deus entrega uma mensagem, dela se faz lei e deixa-se o deus em paz para se burocratizar devidamente o divino recado. Assim, abrindo-me numa profusão de formas iluminadas que espantaram a ave e fizeram prostrar o fiel, declarei: "Para vos fazer profecia convoco-me ao meu presente. Estou-vos além. O meu quotidiano é-vos o vosso distante porvir. Assim como os áugures esventravam pássaros para lhes lerem as vísceras, soubessem-me vós em voo alto, estripar-me-iam. Mas passo, incógnito entre aqueles-que-dormem. Fito os lumes fugitivos dos amanhãs. Estendo o corpo, projecto a alma depois. Deixo que me ateiem fogo. E extingo-me, em prazer ardente".
Saí da cena e reentrei no tanque que fumegava, com água borbulhante dos melhores sabonetes. Pensei que não mentira no discurso, mas imaginei os poetas, operosos, copiando as palavras, recitando-as, discutindo-lhes o sentido, pervertendo-as. Pareceu-me ver um urso polar adiante.